Cerca de 120 pessoas compareceram ao auditório do SUCV na última sexta-feira (16/05/2003) à noite para acompanhar as performances do guitarrista Kiko Loureiro e saber um pouco mais sobre sua vida e suas técnicas.
Kiko ministrou um workshop num clima extremamente descontraído e bem humorado respondendo a todas as dúvidas do público que estava presente e era composto não apenas por músicos, mas também por fãs do guitarrista da banda Angra.
Nas duas horas de duração do evento o guitarrista falou sobre sua vida, sua carreira, seu trabalho no Angra, respondeu perguntas a níveis técnicos e deu diversas dicas. Kiko também demonstrou uma grande empatia com o público. Mesmo cansado pela agenda lotada de apresentações que o obriga a viajar quase diariamente, o guitarrista distribuiu autógrafos, posou para fotos e foi muito atencioso com seus fãs.
Quem presenciou a técnica e a agilidade que o guitarrista demonstrou junto a sua guitarra, muitas vezes não imagina que essa relação tenha começado quase que ao acaso. Sua irmã fazia aulas de violão com um professor em sua casa, e propôs que Kiko dividisse o tempo com ela. Ele mesmo diz que as aulas surgiram como uma atividade extra, assim como um curso de inglês ou natação.
Com o tempo a música virou paixão, e ele começou a se interessar e pesquisar cada vez mais vez sobre o assunto. Sua escola tinha uma biblioteca de vinis e ele passou a ouvir artistas mais antigos, como Led Zeppelin, sofrer influências do rock, e assim acabou trocando o violão pela guitarra. No entanto, Kiko atribui seu sucesso a sua dedicação e estudo. Na adolescência, ele já levava a música bem a sério, foi estudar no antigo IGT, onde conheceu Mozart Mello, com quem estudou durante 5 anos.
Antes do workshop Kiko Loureiro conversou com a assessoria da Musiartes contando um pouco da sua carreira.
Musiartes - Logo após os outros integrantes deixarem o Angra, você falava da preocupação com a nova formação, em achar integrantes que se identificassem com o Angra e na responsabilidade de fazer um novo trabalho que mantivesse o nível dos trabalhos anteriores do Angra. Você acha que encontraram as pessoas certas?
Kiko Loureiro - Acho que sim, tanto que mantivemos o nome que poderíamos usar ou não, já era nosso. Procuramos os caras, começamos a tocar juntos, compor e achamos que o som que a gente produzia ainda remetia ao Angra. Então, como conseguimos manter o conceito da banda usamos o nome. Se tivesse saído uma música muito diversa, talvez fosse melhor optar por outro nome e fazer outra coisa.
Musiartes - E os novos integrantes trouxeram muitas influências?
Kiko Loureiro - Lógico que trazem, mas procuramos trazer pessoas que já se encaixassem com o estilo. Eles já tinham um estilo próximo ao Angra e entraram numa banda que já estava totalmente moldada, com 10 anos de história. Portanto, eles que tiveram que se adaptar e seguir a proposta da banda.
Musiartes - Como você analisa a mudança?
Kiko Loureiro - Nós estávamos há 10 anos juntos e o clima não estava legal para se fazer música. Claro que dava para levar, sabemos de muitas bandas que tem esse tipo de problemas e continuam juntas, mas acabamos nos separando. Nunca saberíamos como a banda estaria se tivesse permanecido unida. No entanto, foi bom dar essa renovada tanto para nós quanto para os antigos integrantes que formaram a banda Shaman.
Musiartes - O que você acha do trabalho da banda Shaman?
Kiko Loureiro - Eu acho bom. Com certeza vou ser o último a falar mal, toquei com os caras durante muitos anos e sempre admirei eles como músicos e compositores. Além disso, por um lado é bom para o Brasil que tem mais uma boa banda se destacando, mas por outro é ruim porque uma banda forte se dividiu e as duas têm que crescer novamente. O mesmo aconteceu com o Sepultura.
Musiartes - O novo Angra foi muito bem aceito pela crítica, muitos dizem que a banda está ainda melhor e com o Sepultura não aconteceu o mesmo.
Kiko Loureiro - É verdade. Só que no caso do Sepultura a maioria ou mesmo todos os novos integrantes são estrangeiros, a banda virou internacional e acabou perdendo um pouco da sua identidade. Por isso, procuramos privar que os novos integrantes do Angra fossem brasileiros, assim há uma identificação dos fãs aqui do Brasil com os novos caras.
Musiartes - Vocês ficaram satisfeitos com a reação do público à nova formação?
Kiko Loureiro - A reação do público foi muito melhor do que a gente esperava. A gente sabia que comparações sempre iriam surgir. Portanto, a nossa preocupação foi de fazer um trabalho bem feito, que por mais que as pessoas dissessem que preferiam o anterior, nunca iriam falar mal. Acreditamos que tudo o que é feito com sinceridade vai para frente, você acaba conquistando as pessoas e por isso que a nossa proposta deu certo.
Musiartes - Como surgiu a idéia de misturar ritmos brasileiros ao metal?
Kiko Loureiro - Pode não parecer, mas o pessoal da banda é muito fã de música brasileira, a gente ouve muito. Particularmente, gosto de bossa nova, da geração setentista, do Tropicalha, como Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, João Donato. Também estudo bastante e toco choro. Ouvimos muito sobre pesquisa de músicos brasileiros e regionais. Além disso, sempre procuramos manter esta identificação da banda com o Brasil.
Musiartes - Como é ser a banda difusora do heavy metal brasileiro no exterior?
Kiko Loureiro – Na verdade o Sepultura abriu as portas. As pessoas já sabiam que o país do Pelé, do café e da Amazônia podia ter heavy metal. Porém, tivemos que mostrar que o nosso estilo era diferente, que queríamos divulgar as coisas bonitas do nosso país, sua cultura, assim como a MPB, e não como o Sepultura que fazia um som violento e negativista, que teoricamente condizia com as notícias que iam pra o exterior sobre o Brasil, de terceiro mundo, favelas e corrupção.
Musiartes – Por que cantar em inglês?
Kiko Loureiro - Além de na época existir a idéia de que para fazer rock era preciso cantar em inglês, nós visávamos o mercado externo. Tínhamos um empresário alemão e contatos no Japão, se produzíssemos algo em português não seria do interesse deles. Depois que o Angra passou a ter repercussão internacional que foi conhecido aqui no Brasil.
Musiartes - Como surgiu a idéia de fazer uma música com a letra em português, como Caça e Caçador?
Kiko Loureiro - Foi uma experiência e um pedido que não veio do Brasil. Na verdade, o público francês sempre perguntou porque não gravávamos em português. Então resolvemos colocar esta faixa bônus num mini-álbum. Já tocamos outras coisas em português, mas a língua é usada como algo onomatopaico, um som diferente que as pessoas não sabem o que significa.
Musiartes - Vocês fazem muito sucesso no Japão e estiveram lá durante a Copa. Como é a receptividade do público lá? Há outros países que você também considera especiais?
Kiko Loureiro - O Japão é especial para nós já que foi o país que financiou o primeiro disco “Angels Cry” (Gravadora JVC) e de cara ele foi disco de ouro lá. Desde aquela época o país é muito receptivo à nossa música, tem um mercado bom para este estilo. Toda vez que lançamos discos vamos lá para fazer shows, divulgação e somos muito bem recebidos. Os japoneses têm uma tendência de venerar os artistas por muito tempo, tanto que muitas bandas que já estão esquecidas no mundo continuam fazendo shows por lá. Os países latinos da Europa, como Espanha, França e Itália, também entendem bastante a música que nós fazemos, gostam dessa mistura, algumas coisas música brasileira, e a gente faz um sucesso grande por lá.
Musiartes - Vocês esperavam o reconhecimento que estão tendo aqui no Brasil?
Kiko Loureiro - Como já estamos a um tempo tocando é normal que haja um crescimento. Além disso, o espaço na mídia tem aberto, já que estilos de música como samba, axé e pagode deram uma retraída. Agora há espaço em programas de TV que antes não existiam. A mentalidade das Tvs está mudando, tanto que estão nos procurando bem mais, uma prova disso é que no próximo domingo a gente deve estar no Globo Esporte.
Musiartes - Por vários anos você foi eleito pela revista Rock Brigade como o melhor guitarrista do Brasil. Você se sente pressionado com essa responsabilidade?
Kiko Loureiro - Acho que todo mundo sabe o que é, o importante é que a pessoa nunca perca este chão. É muito legal ser votado, mas eu sei o quanto eu toco e sei que existem caras muito melhores do que eu, só que isso não chega aos ouvidos dos fãs que lêem que Rock Brigade ou talvez eles ainda não estejam maduros para ouvir um cara que esteja além. Portanto, devo ser o melhor que eles podem enxergar. E também tem o lance de identificação, sou próximo deles, qualquer cara pode ser como eu sou.
Musiartes - Qual a importância da internet na divulgação dos artistas? E a questão da pirataria?
Kiko Loureiro - Depende da consciência das pessoas. É até certo ponto bom para que as pessoas conheçam diversas bandas e possam pesquisar sobre vários artistas. Seria uma ótima maneira de divulgar novas bandas, quebrando a necessidade de uma gravadora. Mas se o artista não vende, não há como manter a estrutura, já que a gravadora deve pagar impostos, direitos autorais. O grande problema é que hoje em dia os cds são caros até porque as gravadoras estão vendendo menos, e mantém o preço alto para que possam manter suas estruturas. Um cd devia custar entre 10 e 15 reias, porque assim o cara ia preferir comprar o original a ter um cd pirata. Para mim a grande questão não é a internet e sim a pirataria.
Musiartes – Quais são os projetos do Angra?
Kiko Loureiro - Agora estamos encerrando uma turnê com mais de 100 shows, que começou em novembro de 2001, quando saiu o último CD, e iniciaremos um período de composição e gravação do novo trabalho, que deve sair no começo do ano que vem.
Musiartes – Você tem algum projeto solo?
Kiko Loureiro - Além dos workshops, também estou lançando duas vídeo aulas, “Os Melhores solos e riffs do Angra” e “Técnica e Versatilidade” . outra vontade que tenho é fazer um cd solo de guitarra e quando tiver um tempo pretendo me dedicar a isso.