O terreno no qual Micka pisa é bem mais acidentado e pouco traçado em mapas, a começar pelo fato de documentar uma fase do metal brasileiro (do fim dos anos 70 ao começo dos 90) cujas histórias nunca foram contadas. "Estamos pedindo aos fãs e músicos que entrem em nosso site (www.brasilheavymetal.com) e mandem material", sugere o diretor, que foi guitarrista do Santuário, nome subterrâneo do metal paulistano dos anos 80. "Dunn fez um grande documentário, mas nós estamos tirando leite de pedra. Vamos direto na profundidade do nosso heavy metal, para que possamos fazer um documento histórico".
Parte desta história passa pelo próprio Micka, que, com sua antiga banda, desativada em 1987, participou da coletânea "SP Metal" --registro histórico do som pesado paulistano feito pelo selo Baratos Afins, em 1985.
Diretor da empresa de multimídia Ideia House, ele começou a fazer o documentário movido pelo desejo de registrar o hiato entre uma época em que nada acontecia por aqui e o período em que bandas como Sepultura faziam shows lá fora. Bem antes disso, os primeiros grupos nacionais faziam questão de, num universo onde havia Legião Urbana e Titãs, cantar em português.
"Essa época gerou clássicos, como "Salem - A Cidade das Bruxas", da banda paulistana Harppia. E histórias engraçadas, como a do Viper, que uma vez usou uma tocha num show e quase pôs fogo no palco. O público pensou que o incêndio fazia parte do espetáculo e aplaudiu", diverte-se Micka, que espera lançar o longa no segundo semestre. "O principal é falar da cena e de sua profissionalização. De fanzines que viraram revistas, lojas de discos que viraram gravadoras. E de como o Rock In Rio, em 1985, foi um divisor de águas. Depois dele, todos sabiam que o metal existia".
Entre os que testemunharam o crescimento do gênero e aparecem no documentário está o cantor Andre Matos, que aos 15 anos era frontman do Viper e segue em carreira solo, depois de liderar outros gigantes do rock pesado brasileiro: Angra e Shaman.
"A gente via os shows desses grupos e levava tão a sério quanto se fosse uma banda estrangeira", lembra Matos. "E o metal ainda era uma verdadeira tribo, uma coisa que defendíamos".
Já Marcello Pompeu, cantor do veterano Korzus, assusta-se com o tamanho que a coisa tomou. "Nos anos 80, jamais iria passar pela minha cabeça que eu teria que aprender inglês e faria carreira internacional", frisa Pompeu.
Micka registrou histórias de nomes como Andreas Kisser e Iggor Cavalera (Sepultura), André Chamon (Stress) e Carlos Lopes (Dorsal Atlântica). Jornalistas, fotógrafos e profissionais do mercado fonográfico, como Luiz Calanca (Baratos Afins) e Paulinho Heavy (ex-executivo da EMI e guitarrista do Inox), também ajudam a remontar a trajetória do estilo no Brasil.
O diretor dissecou cenas regionais e bandas obscuras, como os cariocas do Azul Limão e os posers paulistanos do Salário Mínimo, que chegaram a tocar no Bozo e no "Qual É A Música", do Silvio Santos. O documentário revisita ainda as origens com bandas dos anos 70 como Casa das Máquinas e Made In Brazil e segue pelo rock oitentista, com participações de Roger Moreira (Ultraje A Rigor), Charles Gavin (Titãs) e Paulo Ricardo (RPM).
"O Roger era amigo de todos os músicos de metal e produziu um disco do Korzus, "Mass Illusion" (1991). O Paulo, que foi jornalista, escreveu muito sobre o assunto e até excursionou com o Iron Maiden. E Gavin tocou heavy metal. Era importante saber como o rock brasileiro via o estilo, mas através de pessoas específicas", explica Micka, que deixou rótulos de lado no filme. "Falei com grupos de metal farofa, thrash, death, todos os estilos. Nos anos 80, quando começamos, éramos todos amigos. Não havia preconceito".
Para completar o filme, Micka ainda vai lançar um CD com bandas da época, algumas reativadas. Será feito também um show e um livro com depoimentos inéditos. "Vamos intercalar shows com trechos do documentário", afirma o produtor, até hoje impressionado com o poder que o gênero metálico tem. "Sem tanta divulgação na mídia, um show do Iron Maiden no Brasil lota quase tanto quanto o da Madonna".
UOL