O alagoano Carlos Ezequiel é baterista, compositor e arranjador de jazz e música brasileira. Recipiente de uma bolsa de estudos pela Berklee College of Music durante três anos, Carlos concluiu Bacharelado em Música em maio de 1999. Alguns de seus professores foram Kenwood Dennard, Hal Crook e Luciana Souza. Em março de 2001, Carlos Ezequiel foi indicado ao Prêmio Visa de Melhor Instrumentista. Já foi consultor técnico da revista Modern Drummer, e atualmente é supervisor musical e colunista da revista Batera & Percussão.
Vale à pena conferir a entrevista que o nosso professor Cezar Nogueira fez com esse grande nome da música.
Cezar – Com que idade você começou a tocar e com influência de quem?
Carlos Ezequiel – Comecei a tocar com 12 anos quando consegui convencer meus pais a me darem uma bateria mas o meu interesse musical surgiu desde os 9, eu não sei direito qual a influência porque não tinha nenhum parente próximo que tocasse, mas as minhas lembranças musicais são desde os 5 anos. Lembro de gostar de cantar e fazer música cantando e aos 12 encontrei alguns amigos de escola que tinham o interesse parecido e tentamos montar um grupo. Levei um tempo pra encontrar um professor em Maceió, não tinha nenhum professor na época, a maioria só tocava. Levei uns 2 anos pra encontrar um professor legal e aí estudei com esse cara. Foi o meu mentor, o segundo pai pra mim até hoje ele se chama Marcos Campelo. Mora ainda em Maceió, agora se aposentou, mas ainda é um expoente local sempre tocando música instrumental. Aos 15 anos comecei a tocar música instrumental com uns músicos mais velhos;
Cezar – Antes tu tocava que estilo?
Carlos - Rock, Mpb, tocava um pouco de barzinho e aí comecei a trabalhar mesmo que fui convidado por esses músicos profissionais bem mais velhos que eu e esses caras todos tinham acesso a musica legal, principalmente o trompetista que era o cabeça do grupo, me apresentou discos de grupos como Medusa, Egberto Gismonti, Hermeto, um monte de coisa de musica instrumental brasileira e americana também, tive a sorte de muito cedo encontrar esse tipo de som e já desenvolver essa linguagem de música mais improvisada e depois daí não quis tocar outra coisa;
Cezar – tu gravou os trabalhos do Sinequanon que são 4 discos, tem outros trabalhos gravados?
Carlos – eu gravei mais discos, agora discos meus tenho um que tá no meu nome e do Lupa Santiago que é o trabalho que virou o Sinequanon, foi basicamente o primeiro de onde ele surgiu, se chama Images que foi gravado em 2000. Foi meu primeiro disco como compositor, como líder, que é um pouco mais brasileiro. Foi gravado nos EUA, esse disco foi lançado aqui no Brasil em 2001 e a gente foi indicado pro Grammy Latino em 2002, depois veio o Sinequanon, o disco como se fosse do grupo que foi gravado em 2003 e o terceiro que é o Telescópio que foi gravado em 2005 e acabamos de gravar outro em final de outubro que se chama Horizonte Artificial que vai sair em fevereiro ou março do próximo ano. Mas gravei discos de outros cantores em 98, gravei o disco de um cantor na Suíça chamado Maclin, a gente fez uma turnê por lá, tocamos n festival de Montrex. É um disco de musica brasileira um pouco na direção de Gilberto Gil, Alceu Valença, Lenine. É um cantor que já tem uns 3 ou 4 discos gravados na Europa e só agora que um dos discos vai ser lançado aqui, acho que é o que eu gravei. Tem uns outros discos de cantores que eventualmente gravo inteiro ou faço participação e alguns deles estão no meu site www.carlosezequiel.com .
Cezar – Qual tua idéia do futuro da bateria diante dessa gama de recursos tecnológicos que existe hoje em dia? Tu acha que daqui a uns 10 ou 20 anos o pessoal ainda vai estar trabalhando mais com kit acústico ?
Carlos – Com certeza, nada vai substituir o kit acústico, é só você pensar que na verdade essas inovações começaram nos anos 70 e de lá pra cá não mudou muita coisa, as pessoas ainda tocam com acústico. O que muda na tecnologia eu acho que é a microfonação, a maneira de mixar o disco, como captar o som. A tecnologia pode influenciar na fabricação, mas bateria acústica não tem chance de ser substituída.
Cezar – Hoje em dia tu não acha que o trabalho pro baterista diminuiu em relação a antes para as gravações havendo muitos produtores que utilizam samplers de licks e grooves ?
Carlos – Acho que não, talvez usem isso mais para jingles, mas para discos nada substitui um ser humano lá tocando, tanto que a maioria dos discos é feito por pessoas tocando, existe um componente que é a interação, você toca uma coisa e eu respondo, que é isso que faz a musica parece viva. Não conheço nenhum disco que tenha sido gravado inteiro com esse recurso, ás vezes vejo esses samplers como uma trilha adicional, um efeito na musica, por exemplo pega os discos do Lenine, ele é um cara que explora muito esses efeitos, samplers e loops, mas sempre tem um cara tocando batera. Tem muito mercado de batera pra quem toca, tem alguns que se especializam em trabalhar junto com esses samplers;
Cezar – Que bandas tu indica escutar para quem quer trabalhar nessa linha instrumental?
Carlos - Sempre acho que é bom escutar grupos desde o mais antigo até o mais recente, então se você quer música brasileira voltar para a década de 60 que é onde a gente começa a ter uma produção desse estilo e ouvir de lá pra cá. Como ponto de partida Milton Banana trio, Rio 75 trio com Edson Machado, Don Salvador trio, Tamba trio, Sambrasa que era um grupo que tinha o Hermeto tocando piano e o Airto Moreira na bateria; quando você entra na década de 70 você tem grupos que começam a ter influência do funk, aquela praia toda de samba funk, Black rio, Medusa vem dali. Dos anos 80 pra cá começa a ter grupos que são mais contemporâneos e muitos ainda trabalham como Egberto Gismonti, que já vinha de 70 na verdade, Hermeto, músicos que tocaram com esses caras montaram seus próprios grupos. Tem um grupo que ficou parado um tempo e voltou que é o Pau Brasil, e teve vários bateristas, tem uma fase que era o Bob Wyat, outra o Zé Eduardo Nazario, então eles fizeram coisas interessantes ali. Agora baterista é o Ricardo Mosca, um cara mais jovem e é um trabalho que vale a pena ver. Dos anos 90 pra cá tem uma produção grande de música instrumental e está abrindo mercado e crescendo pra caramba;
Cezar – Hoje em dia se vê muita gente fazendo música instrumental, bem mais que antigamente, talvez devido á informação que a Internet disponibiliza;
Carlos – Talvez e tem muito festival de Jazz no Brasil, se você da uma olhada na Internet pra descobrir você perde a conta. No Ceará tem três festivais de jazz, Minas tem uns seis...
Cezar – O mais perto que a gente conhece é em Cascavel...
Carlos – Sim, eu toquei no de Cascavel em 2002. Desses trabalhos recentes, acho muito importante citar o Nenê que foi um cara que passou a atua como compositor dos anos 90 para cá, quando ele voltou para o Brasil, que ele morou na Europa por 12 anos. O Nenê trio, grupo dele. Ele é um gigantesco compositor, um dos principais nomes da música instrumental brasileira atual, um cara que tem muita história, dos anos 70 para cá ele tocou com “quem é quem” dos fenômenos da música brasileira e passou a produzir uma música muito autêntica, aliás ele é gaúcho, um conterrâneo de vocês. O Bob Wyat também é um baterista da antiga na casa dos 60 anos com um vocabulário muito rico, ele tocava até a pouco numa Big Band chamada Soundscape que tem uns dois ou três discos que recomendo, ele tem o próprio grupo que se chama Bob Wyat Quinteto, tem um trio com o Lupa Santiago que se chama Regra de Três, que é um trabalho muito interessante também.
O Sinequanon tem uma linha diferente dos grupos do Brasil, a gente trabalha uma linha contemporânea. Na realidade não é jazz, na concepção mais original da palavra, não é fusion, não é funk, é musica brasileira moderna. Existe uma certa resistência no Brasil de achar que musica brasileira tem que ser samba, tem que ser partido, tem que ser maracatu e tudo isso é fantástico e tem muita gente fazendo isso, mas musica brasileira no meu entendimento é musica que é feita no Brasil, e daí que a chacarera é original da região andina, vocês tocam chacarera aqui no sul e é chacarera brasileira, tem que parar um pouco com esse preconceito, o sinequanon toca musica brasileira, tem que engolir isso! Tem influências do funk, do jazz, tem como tem do samba. Eu toco, estudo e faço gigs de samba pra caramba, alguns dos outros trabalhos que toco tem uma cara semelhante, você acaba pendendo pra isso. O trabalho do MC4 tem muita experimentação, mas se você ouvir tem samba com essas métricas malucas, uma coisa meio baião e tem coisa meio jazz, funk e tem coisa que você não tem como denominar, não dá pra dar nome, é brasileiro e fim de papo. O grupo do Edu Ribeiro que se chama Trio Corrente é excelente de música brasileira moderna, muita coisa de rítmica. O Saxofonista Vinícius Dourin tem o trabalho dele, Fernando Correia também, esses artistas todos estão produzindo muito. O Fernando Correia já vai no seu quarto disco, o Vinicius no seu terceiro, o Nenê já tinha gravado o seu quinto ou sexto, o Sinequanon já vai lançar o quarto disco isso num período de seis anos, sete anos.
Cezar – Dos bateras que estão aparecendo agora na musica brasileira, fora os mais antigos, quem tu indica escutar?
Carlos – Vamos considerar os bateristas novos caras que vem desenvolvendo um trabalho de uns 10 anos para cá, que acredito que não se consiga desenvolver uma personalidade musical bem definida com menos que isso ou com uns 30 anos de música. Bob Wyat e o Nenê são caras que já tem isso. Eles tem o direito de dizer “ eu toco desse jeito e problema seu” , quem tem menos de trinta anos, na minha opinião, é um artista em formação. Então os que considero de uns 10 anos pra cá, que são novos: Edu Ribeiro é um deles. É um cara fantástico, toca muito com cantores, faz trabalhos instrumentais geniais e também está se lançando como compositor e lançou um disco dele ano passado. Serginho Machado é um baterista muito legal, toca muito bem, mas só vi tocando com cantores. Sergio Gomes é um batera fenomenal, mora em NY faz dois anos. Quando estava no Brasil trabalhava com grupos tipo Terra Brasil, é um batera muito criativo, muito inteligente, muito musical e é um excelente compositor. O Ramon Montagner também é um baterista muito criativo, gosto da maneira que ele trabalha os recursos que ele tem porque ele se especializou em coordenações absurdas, o kit dele tem uns dez ou doze pedais e isso as vezes é muito perigoso porque por você ter esse monte de “trecos” na bateria você pode se distrair e tocar as peças só porque elas estão lá. Mas o Ramon não é assim, ele toca essas peças com muita inteligência e tem uma coisa que ele faz muito bem e que no Brasilian Duet não aparece, ele toca vassoura lindamente. Eu vi algumas vezes ele tocando vassoura com Jhonny Alf o show inteiro, lindo, lindo!! Ele tem um domínio de vassoura impressionante! Mas agora ele esta fazendo gigs mais pop, como Luiza Possi, que acho uma pena. Acho que é uma musica muito pobre para um músico tão bom como ele.
Cezar – No work que você fez notei que não utilizava licks como normalmente se vê os bateristas trabalharem. Você tinha uma liberdade muito grande em relação à musica. Você pensa mais em cima do pulso, da melodia da musica?
Carlos - Esse método de pensar em frases, licks que tu falou é parte do desenvolvimento musical, mas eu gosto muito de pensar que musica é uma linguagem. Vê como você aprendeu a falar? Imitando. Você viu seu pai, sua mãe, imita um pedaço de uma palavra, depois uma palavra inteira, depois imita uma frase. Depois você imita porque entende o significado delas, tipo quer água fala água. É meio por aí. Mas hoje em dia quando você fala, como a pergunta que você me fez, você ficou pensando antes na frase que iria me falar ou você só falou? Você só falou. Você pensa na idéia. Não nas palavras que você usa. É mais instantâneo. É essa direção que a gente tem que abordar com a musica também, se familiarizar com certar situações musicais pra na hora de tocar você não pensar, não pode pensar quando toca, porque se você pensar você não faz musica, não faz arte. Dizem que arte é a expressão do pensamento, no sentido que é instantâneo, no sentido de fluir. É essa maneira de tocar que sempre me atraiu, quando via bateristas tocando desse jeito eu ficava alucinado!
Cezar – Não sou um profundo conhecedor do assunto, posso estar errado, mas notei uma certa influencia de Jack Dejonette na sua maneira de tocar...
Carlos – Antes disso, na verdade tenho uma influencia semelhante a dele, porque ele vem de uma linhagem direta do Elvin Jones que foi um dos primeiros caras a tocar desse jeito no jazz. Antes dos anos 60 no jazz até os anos 50 no bebop tocava-se de uma maneira muito clara, muito óbvia. E era fantástico, era dificílimo, muita coisa rápida, muita pratica de rudimentos. Philli Jô Jones era um dos melhores caras nesse estilo. Semicolcheias eram precisas, tercinas eram precisas. O Elvin foi um dos caras que começou a tocar mais solto, parecendo mais humano. Ele expressa os sentimentos sem ficar preso ao tempo.
Cezar – Sem ficar preso a frases, que você vê em muitos bateras hoje em dia...
Carlos – Essas coisa podem ser legais como recursos de estudo mas não dão certo. É que nem eu aprender uma frase legal tipo “subi no ônibus em Marrocos” e você me pergunta sobre bateria e respondo “bixo subi no ônibus em Marrocos” , não tem nada a ver com o assunto. Com freqüência a gente vê caras que não são profissionais ou que estão a caminho do profissionalismo aplicando frases que não tem a ver com a musica. E isso não tem problema, é um processo, mas tem que saber que não termina ali. Tem que torcer para que daqui um tempo essas coisas venham num sentido mais musical.
Cezar – Vi uma vez em um work do Bob Wyat numa revista que ele dizia que o baterista tinha que seguir uns três passos na visão dele, que seria imitar, assimilar e inovar...
Carlos – Exatamente isso. Qualquer tradição é assim. É assim sempre. Eu tenho muito medo, como no Brasil a gente tem uma cultura musical muito diversificada, meio perdida e abandonada mas ainda existe, as pessoas tendem defender isso numa postura meio radical. Como o folclore é muito abandonado, poucas pessoas que tendem defender ele, defendem duma maneira que não acho legal. Querem dizer que o folclore tem que ser mantido exatamente como está, não pode inovar. Existem Secretários de cultura, pessoas que trabalham nesse meio com medo de permitir inovações e acho um grande perigo, porque faz parte da tradição se renovar. Se você pensar na musica erudita, Bach tocava de um jeito e Mozart renovou, mudou o jeito de tocar.
Cezar – Mas tu não acha que pode se perder um pouco da cultura?
Carlos – Não, a cultura é uma expressão humana, as pessoas mudam.
Cezar – Pergunto isso porque aqui no Rio Grande do sul tem vários grupos que adicionaram influencias do samba, samba-reggae e outros estilos nos ritmos gaúchos tradicionais e acabou nascendo a chamada tche-music com várias percussões e muitos CTGs proibiram esses grupos de se apresentarem no local por não manterem a tradição dos grupos mais antigos.
Carlos – Tchê Music, que legal! Eheheh! Mas é uma pena porque isso é inevitável! Os grupos que tocam tradicionalmente não acho que vão sumir. Vão diminuir um pouco sim, mas sempre vai ter alguém, inclusive as pessoas vão aprender a valorizar os mais antigos, mas acho legal que traga novidade. Tem um exemplo bem claro no Brasil, as escolas de samba há trinta, quarenta anos atrás tinham os enredos bem mais lentos, tinham pulsação na casa dos 80, 90 bpm. Hoje em dia é 120 quase todos, sabe porque? Porque hoje nos desfiles eles tem um tempo fixo e antes tinham muito menos gente. Hoje um dos critérios que julgam as escolas de samba é a inovação. A bateria no meio do desfile mandou uma levada de funk. É impossível evitar que isto ocorra, você acredita que a escola vai acabar por isso? Não. É um problema que um moleque que toque caixa na escola aprenda uma levada de funk? Claro que não. Ele vai continuar apaixonado por samba. Isso acontece também no nordeste, nos grupos de maracatu, nos folclores, existe um medo de inovar e acho que aí é que o folclore morre. Que o pessoal mais jovem não se interessa e os mais velhos que mantém a tradição morrem e ninguém segue. Tem um grupo de frevo muito bom que se chama Spocks Frevo Orchestra. Eles tocam de um jeito tradicional mas com coisa modernas também, foi uma das coisas que trouxe de novo o frevo pro cenário musical, foram tocar no Jô Soares, em Cascavel. A inovação é um processo humano, é impossível impedir.
Cezar – Tem algum nível que tu ainda queira chegar na bateria? Desenvolver alguma técnica?
Carlos – Eu nunca vi a musica desse jeito, eu gosto do processo de crescer. Eu ainda sento na bateria com a mesma vontade, a mesma curiosidade de quando tinha 13 anos, acredite se puder. Tento manter essa mesma energia. Pra mim o que é legal é pensar que tenho muito mais coisas na minha cabeça que na minha mão, a minha compreensão de musica, como para todo mundo, leva um tempo pra ser transportada para o instrumento, eu gosto de sempre estar aprendendo coisas novas e estar tentando descobrir como tocá-las, não como alvo do tipo quando chegar lá vou parar, eu gosto da estrada sem mirar um destino, eu gosto da estrada. Você passa por buracos, por lugares legais, faz parte da vida